sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SÃO JORGE DO BRASIL


São Jorge do Brasil


O Celophane Cultural em 23 de Abril vem homenagear  São Jorge, o santo guerreiro, que ao matar  o dragão da maldade e salvar a humanidade do mal, não tinha idéia de como ficaria famoso e teria uma legião de fiéis no mundo inteiro.Mas “o brasileiro”, também guerreiro, com a fé em Jorge, mata um dragão por dia. Por isso podemos afirmar que São Jorge é do Brasil.



Festa de São Jorge em Vespasiano, MG. A guarda de Marinheiro de São Jorge recebe os convidados. 25/04/2010. FOTO ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA
Porque São Jorge é Tão Brasileiro?
Ele é a síntese da fé cultuada dentro das religiões através dos séculos, tão depurado que deixa o manto e se torna ícone de força e coragem.
O culto ao santo é, no Brasil, uma das mais arraigadas heranças portuguesas e uma enorme festa contemporânea profana e religiosa, laços de fé que unem Brasil e Portugal, o sincretismo religioso, a cultura popular e em especial a identificação cultural dos brasileiros com São Jorge.

Procissão de São Jorge - Rio - Foto ntegrante da exposição: "As MUitas faces de Jorge" _ galeria Mestre Vitalino - Museu do Folclore - Foto: Fábio Caffe
A identificação popular é notável,  o Santo é venerado desde os tempos da colônia, São Jorge está presente nos altares das Igrejas católicas e ortodoxas e nos gongás da umbanda, nos botequins e fachadas de casas, é patrono de time de futebol, está presente nas artes plásticas, na poesia e na música popular. A imagem em que o santo enfrenta um dragão repousa estática entre garrafas de bebida nos bares cariocas e nos nichos domésticos; desfila em decalque na carroceria dos ônibus bordados nas capas dos assentos de seus motoristas; gravada em medalha de prata, ouro ou no reluzente chapeado, pende do pescoço do playboy e do operário, do patrão e do empregado.
A grande festa no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, a devoção a São Jorge desafia as barreiras etárias, sociais e zomba dos limites geográficos. Aproxima o velho do moço, as classes média e baixa dos célebres emergentes, a zona sul do subúrbio, o morro do asfalto, o lar do botequim.

Procissão de São Jorge - Rio - Foto ntegrante da exposição: "As MUitas faces de Jorge" _ galeria Mestre Vitalino - Museu do Folclore RJ - Foto: Ingrid Cristina
É exemplo perfeito da religiosidade popular brasileira tal como a descreveu Gilberto Freyre: uma “religiosidade afetivizada”, que canibaliza as hierarquias impostas entre o sagrado e o profano e transforma a festa para o santo às portas da igreja, na Rua da Alfândega, em uma festa carnavalesca.

Imagem de São Jorge - Igreja na Rua da Alfândega RJ - Foto: Jefferson Duarte
A dimensão que o culto a São Jorge assumiu no Rio de Janeiro contou, é certo, com a força das religiões afro-brasileiras. Sabe-se há muito que os escravos encontraram no culto aos santos um abrigo seguro para a manutenção do culto às entidades do panteão iorubá, quando a prática era assunto de polícia. A função medianeira, as habilidades e o conhecimento no trato sobre certa matéria aproximaram os santos e os orixás. Enquanto os atributos dos santos indicavam o exercício de seu antigo ofício, a aptidão para cura de uma doença ou a resolução de um problema, os símbolos dos orixás revelavam, do mesmo modo, suas propriedades curativas e materiais. Nos terreiros do Rio, São Jorge emprestou sua face a Ogum, na Bahia a Oxossi.
O encontro de São Jorge com os deuses africanos é um dos muitos capítulos que compõem a história da devoção ao mártir no Ocidente. São Jorge dialogou com outros mitos desde a Antiguidade até assumir a feição lusitana que os colonizadores trouxeram ao Brasil. Ao contrário de outros santos do catolicismo, São Jorge conta com mais de um relato hagiográfico, sua canonização literária.
Mas como o venerado Guerreiro ganhou tanta força que a fé em chega aos dias de hoje?

AS LENDAS
A Legenda Áurea – o Mártir
São Jorge nasceu na Capadócia no ano de 280. Logo no final do século III, ele trocou a Capadócia pela Palestina e ingressou no exército de Diocleciano. O cristão chegou rapidamente aos postos de conde e depois de tribuno militar. As complicações para São Jorge iniciaram quando os cristãos voltaram a ser perseguidos. Coerente, São Jorge manteve sua fé e passou a lutar a favor dos cristãos, superando cada tortura a que foi condenado por Diocleciano e convertendo mais e mais soldados ao reino dos céus.

“Breviário Livro de Horas” de 1378” que tem São Jorge em seu martírio e guarda lições de fé coragem e determinação que inspiraram seus fieis.
O imperador Diocleciano, contrariado com a resistência dos cristãos encabeçada pelo guerreiro, chamou um mago para acabar com a força de Jorge. O santo tomou duas poções e, mesmo assim, manteve-se firme e vivo. O feiticeiro juntou-se à lista dos convertidos. Durante seu martírio, Jorge mostrou-se tão inflexível que a própria mulher do imperador Diocleciano também converteu-se ao cristianismo. Esta teria sido a última gota, que fez com que Diocleciano mandasse degolar o ex-soldado em 23 de abril de 303. A data ficou marcada como Dia de São Jorge.
A Lenda do Catolicismo Popular o Dragão

A lenda mais conhecida onde São Jorge contra Dragão da Maldade.

reprodução do mais famoso "Santinho" de São Jorge - imagem popular autoria desconhecida
A Arte Cristã representa São Jorge montado num cavalo, combatendo o dragão de Selena na Líbia, salvando a vida de uma princesa. A Igreja cita que essa representação é alegórica, pois o dragão vencido pelo santo, representa o espírito mau. A princesa simboliza a esposa do imperador que presenciando a constância do mártir, se converteu ao cristianismo.
Dizem que o cavalo branco de São Jorge é abençoado por Deus. 



Reprodução do Quadro de Raphael (1483 – 1520)– “St. George and the Gragon” – 1506 - Da National Gallery of Art – Washington DC.
Os restos mortais de São Jorge foram transportados para Lídia (antiga Dióspolis), onde foi sepultado, e onde o imperador cristão Constantino mandou erguer suntuoso oratório aberto aos fiéis. Seu culto espalhou-se imediatamente por todo o Oriente (Constantinopla, Egito, Armênia, Grécia, Império Bizantino).

Reprodução de fotografia da escultura em madeira de São Jorge datada de 1489 da Catedral gótica de Estocolmo – Storkyrkan – autoria de Bernt Notke de lübeck

"a espada e o Dragão" gravura e Samico - Brasil - 2000
São Jorge na cultura Portuguesa
Devoção Portuguesa – São Jorge Defensor do Império
O Culto dos reis de Protugal ao megalomártir tem início com a fundação do Reino de Lisboa Por Afonso Henriques – 1° Monarca de Lisboa. 
Durante a Dinastia de Avis (século XIV ao séc. XVI) a fé em São Jorge passou a representar a vocação de Portugal para a conquista.

Como mais um sinal de devoção, o Infante d. Henrique deu o nome do santo a uma das ilhas do arquipélago dos Açores.
Posteriormente o Santo foi tomado como intercessor celeste pela disputa da coroa Lusitana contra Castela quando
D. João I entrega a batalha a São Jorge gritando:

“Avante São Jorge, avante, que eu sou Rei de Portugal”
São Jorge Atravessa o Atlântico

“Que culpa tem ele de ser tão belo e ecumênico” – Mário Quintana

A procissão bahiana
A Primeira procissão do Corpo de Deus  foi realizada na Bahia em 1549 trazendo o “Santo mártir” à moda de Lisboa o santo saía na procissão baiana sobre cavalo ricamente adornado, escoltado por seu págem, por seu alferes, o popular “Homem de ferro”, e por cavalariços vistosamente trajados.
Após o descobrimento do Brasil, a imagem do santo sobre o cavalo passou a ser um dos principais atrativos do desfile.
A procissão Mineira
Em Vila Rica (hoje Ouro Preto, MG) no século XVIII, também não se economizava em pompa. Na véspera da procissão, à noite, os Criados de São Jorge, vestidos de capa e calção vermelhos, rufando tambores, anunciavam pelas ruas o cortejo. Ao Amanhecer, ao som da banda e ao estouro dos fogos, o povo ganhava as ladeiras da cidade.Antes da missa, na matriz de Nossa senhora do Pilar, a imagem de São Jorge sobre um cavalo, seguida por seu alferes em ricos trajes romanos, e por um anjinho, dirigia-se à igreja. A Imagem de São Jorge esculpida por Aleijadinho, saía escoltada por quatro estribeiros vestidos como pagens  e um piquete de cavalaria com cascos dourados e arreios enfeitados.

O Santo era recolhido no Paço da Câmara.

Escultura em cedro - Aleijadinho – Museu da Inconfidência – Ouro Preto – MG - detalhe da montagem da escultura com capa original na EXposição Brasil 500 anos - Curiosidade sobre a obra: A imagem ficou anos na Prisão por ter caído e matado um soldado durante uma procissão.
A procissão do Rio de Janeiro Capital do Império
No Rio de Janeiro imperial, o desfile de São Jorge provocava tamanho impacto no dia do Santíssimo que se tornara por si só um acontecimento. O mártir era o único santo a integrar o cortejo. Ao repique do sino da igrejinha da rua de São Jorge, atual Gonçalves Ledo, declarava-se iniciada a festa. O foguetório abafava o vozerio e a irmandade do santo, com capa, punha-se a aguardar a chegada do corcel branco. O cortejo liderado pela Irmandade, contava com a banda de escravos da Quinta da Boa VistaA Imagem vinha em cima de um cavalo Branco, com um criado de cada lado, armadura, escudo elmo com ornamentos dourados e capa de veludo carmesim bordada a ouro.

São Jorge na Procissão de Corpus Christi - Aquarela de Debret Sec. XIX - A estátua de São Jorge desfilava enfeitada sobre um cavalo ao lado do "Homem de Ferro". Acervo Museus Castro Maya / IBRAM / MINC
Atrás, o escudeiro sobre um ginete abria o caminho para 24 cavalos das cavalariças da Quinta da Boa Vista.
A Única presença a rivalizar com o santo era o imperador D. Pedro II que desfilava suprindo a demanda dos reis e dos exércitos, ajudando – lhes a forjar uma estampa de glória e conquista.
“No Brasil São Jorge é Ogum”O sincretismo
A força do Venerado Guerreiro só explodiu no país a partir do sincretismo religioso com os cultos afro-brasileiros.
Os negros nas senzalas cantavam e dançavam em louvor aos orixás, entretanto seus senhores não gostavam, e tentavam converte-los a fé cristã, aqueles que não se convertiam eram cruelmente castigados. Daí nasce o sincretismo, em que os negros africanos associavam os orixás  aos santos católicos.

Obra em Argila da série "Sincréticos" de Elson Santos - MUseu do Homem do Nordeste - Acervo FUNDAJ - PE
No candomblé da Bahia é associado a Oxossi, mas é em Ogum, na umbanda que São Jorge tem a maior representação. São Jorge foi uma das primeiras figuras da Igreja católica a ser incorporada à cultura afro-brasileira.

Altar de Umbanda todo enfeitado de vermelho, cor destinada a S. Jorge e a Ogum na UMbanda - foto: Klaus D. Günther
Simbolicamente Ogum que na mitologia corresponde ao Orixá dos exércitos, dos guerreiros e dos soldados. Orixá do calor, da força e da energia. É o rei do ferro e protetor de todos que venham a trabalhar com instrumentos metálicos.
Na África é festejado como padroeiro da Agricultura.

EScultura africana em madeira representando Ogum aquele que abre os caminhos
Ogum festeja sua data no mesmo dia que São Jorge: 23 de abril. Conforme o Dicionário do Folclore Brasileiro, ele é o orixá do calor, da força e da energia. É o rei do ferro e protetor de todos os que venham a trabalhar com instrumentos metálicos.

OGUM de Carybé umas das 19 peças que fazem parte da – Exposição Grande Mural dos Orixás (até 29/05) MUseu Afro Brasileiro - SP – A mostra homenageia o centenário de nascimento do artista Carybé, incluindo 19 painéis representando os deuses d’África no Candomblé da Bahia. As obras pertencem à coleção do Banco do Brasil BBM S/A, em comodato no Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia.
Conhecido e festejado na África como padroeiro da Agricultura. Ogum na Umbanda é, como os espiritualistas chamam, São Jorge Guerreiro.
O Sincretismo entre São Jorge e os orixás africanos e seu vínculo com categorias ligadas às forças militares, aos ofícios que ligam com o ferro e com o fogo, mecânicos, bombeiros e  barbeiros, reforçaram a devoção do santo no Brasil e garantiram sua extrema popularidade até os dias de hoje. Presente no imaginário popular como o representante da fé
podemos garantir que São Jorge é Brasileiro.

EXposição “As Muitas Faces de Jorge” (inauguração dia 28/04)

Convite para a abertura da Exposição

A exposição reúne representações de artistas populares de diversas localidades do Brasil que integram os acervos do Museu de Folclore Edison Carneiro e da Biblioteca Amadeu Amaral, do CNFCP, e do acervo pessoal do pesquisador Ricardo Gomes Lima.
O filme “Uma festa para Jorge”, dirigido por Isabel Joffily e Rita Toledo, produzido para a série Doc. TV, em 2009, será exibido na mostra durante a sua temporada.
Inauguração:28 de abril de 2011, às 18h
Período:
Até 31 de julho de 2011.
Galeria Mestre Vitalino – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
Rua do Catete, 179 (metrô Catete), Rio de Janeiro.
Também no Rio uma interessante Exposição sobre São JOrge na UERJ –“JORGE”

O Venerado guerreiro nas artes plásticas
São Jorge foi retratado diversas vezes por artistas renomados:

SÃO JORGE E O DRAGÃO 1943, pintura mural à têmpera, 244x61 cm Museu Casa de Portinari, Brodowski, SP

O Artista plástico Farnese de Andrade tem diversas peças inspiradas no Glorioso Guerreiro.

NO Imaginário S Jorge sempre é lembrado: Xilogravura de Fernando Vilela: Livro: Ivan filho-de-boi (Mitos Russos) Autora: Marina Tenório / Ilustrador: Fernando Vilela Coleção Mitos do Mundo - Ed. Cosac & Naify

"Os Filhos de Jorge" um animadíssimo Blog "Os Filhos de Jorge!" De uma união improvável surgem estas duas criaturinhas que vão fazer você ficar no mundo da lua! - Por: Cisko Diz
São Jorge é POP
São diversas as manifestações artísticas e do dia a dia em que São Jorge se faz presente:
algumas imagens destes devotos/artistas:

Dragão de São Jorge esculpido por Rafael nas areias de Copacabana - RJ

São Jorge no Barracão da escola de Samba Império Serrano onde o Santo é padroeiro - foto Jefferson Duarte

Oratórios confeccionados por artesão diversos em exposição no Centro Cultural Carioca - RJ - Foto: Jefferson Duarte
Fontes:
Georgina Silva dos Santos, professora do Departamento de História da UFF  – Núcleo de História Moderna e Colonial da Época Moderna da mesma universidade. – Ofício e Sangue – A Irmandade de São Jorge e a Inquisição na Lisboa Moderna - compre o livro
Georgina Silva dos Santos. “Venerado guerreiro”. In: Nossa História. ano 1, n. 7. Biblioteca Nacional
Matéria da REvista de História da Biblioteca Nacional – Por Beatriz Catão Cruz Santos – Santo Guerreiro
Eduardo Silva. Dom Obá II d’África, o príncipe do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
Jacopo Varezze. Legenda Áurea: vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
João da Silva Campos. Procissões tradicionais da Bahia. Salvador: Publicações do Museu da Bahia, 1947.
Museu Afro Brasileiro: Carybé e o Grande MUral dos Orixás
Blog: “Os Filhos de Jorge” www.osfilhosdejorge.wordpress.com

UMA ÓTIMA EXPLICAÇÃO DA POPULARIDADE DO GUERREIRO NO BRASIL



Santo carioca

Popular no Rio de Janeiro, São Jorge é destaque nas festas religiosas da cidade desde o século XVIII

Beatriz Catão Cruz Santos
  • São Jorge está em alta no Rio de Janeiro. Desde 2002, o dia do santo – 23 de abril – é feriado em todo o estado, sendo comemorado com muita festa. No Centro da cidade, há missas, salvas de canhão, banda de música, barraquinhas e batucada. Nos bairros de Campo Grande e Bangu, por exemplo, os fiéis saem em cavalgada pelas ruas. Em Madureira, a escola de samba Império Serrano organiza carreata e depois uma feijoada na sua quadra.


    Mas a participação do santo guerreiro em celebrações religiosas vem de longa data, ainda no reinado de D. João I (1385-1433), o fundador da Dinastia de Avis (1385-1581). Nessa época, foi instituída a festa de Corpus Christi (Corpo de Deus) em Portugal e São Jorge tornou-se o patrono do país, em substituição a São Tiago (de Castela), passando a figurar nas procissões lusitanas a partir de 1387. Em 1422, outro fato contribuiu para a popularização do santo: o monarca cria a Casa dos Vinte e Quatro, uma instituição por meio da qual os artesãos tinham alguma representação política na Câmara Municipal de Lisboa. D. João I fora alçado ao trono por um movimento que os incluía, e buscava reconhecer este engajamento. Entre eles havia os profissionais do ferro e fogo – como os ferreiros e os serralheiros –, que se organizariam numa irmandade sob a proteção de São Jorge. Portanto, desde D. João I, São Jorge era relacionado, simultaneamente, à monarquia e aos artesãos do ferro e fogo.


    Aos poucos, a celebração religiosa, surgida na Idade Média, tornou-se, sob o patrocínio da monarquia, uma das mais solenes festas do mundo português no século XVIII. Os preparativos começavam com a Câmara Municipal anunciando publicamente a data da festa, que deveria ocorrer sessenta dias após a Páscoa. Mas a data nem sempre coincidia com o calendário cristão. A instituição também nomeava quem carregaria as varas do pálio – sobrecéu portátil com varas que é conduzido em procissões, caminhando debaixo o sacerdote, que leva a custódia –, determinava a limpeza das ruas, o trajeto e o próprio cortejo, seus participantes e a ordem do desfile. Na hora da festa, danças, bonecos gigantes e representações teatrais subvencionadas pelos artesãos se misturavam à procissão, que partia da igreja matriz e percorria as ruas centrais de cada cidade. No governo de D. João V (1708-1750), as manifestações mais populares foram sendo excluídas ou reorganizadas, de forma a tornar a festa mais solene e hierárquica.


    A comemoração rapidamente se espalhou pelos domínios ultramarinos portugueses. No século XVIII, São Jorge saía à frente das procissões de Corpus Christi que animavam o Rio de Janeiro. Nesta cidade, como em Lisboa, a irmandade dedicada ao santo católico se responsabilizava pela preparação de seu patrono e de sua corte. Desde a década de 1740, a irmandade estava instalada na Igreja de Nossa Senhora do Parto, templo aberto à presença de africanos desde a sua fundação, localizado na atual Rua da Assembleia. A mesma igreja também era local de cerimônias de outras irmandades: São José, dos carpinteiros, pedreiros e marceneiros; Santa Cecília, dos músicos, e Santo Elói, dos ourives. De acordo com seu primeiro compromisso (o conjunto de regras que organizava a instituição), firmado em 1757, “todos os mestres que tivessem loja aberta dos ofícios anexos à mesma irmandade, ou seja, os de serralheiro, ferreiro, cuteleiro, espingardeiro, latoeiro, funileiro, caldeireiro, ferrador, espadeiro, dourador e barbeiro” ficavam obrigados a ingressar ali. Não à toa, a agremiação pode ser definida como uma irmandade de ofício. Além de ter a Igreja Católica e a monarquia como referências, a Irmandade de São Jorge adotava como um dos principais critérios o domínio de uma atividade profissional.


    Bem diferente do que acontecia em Lisboa, no Rio de Janeiro as portas da irmandade estavam abertas tanto para os homens livres e brancos como para mulheres, forros e escravos. Para se tornar um oficial e manter-se nessa posição, o irmão precisava cumprir uma série de exigências. Entre elas estava o pagamento de taxas de entrada, anuais e de exame. Em seu primeiro compromisso, os irmãos devotos do “glorioso mártir São Jorge” tentaram barrar o acesso a qualquer “Judeu, Mouro, negro ou mulato ou de outra infecta nação”, atualizando os critérios de limpeza de sangue presentes nas Ordenações do reino: as Ordenações Afonsinas (1446-47); as Ordenações Manuelinas (1514-1521) e as Ordenações Filipinas (1603). Esses critérios, encontrados nas leis gerais do reino, limitavam o acesso a cargos públicos, eclesiásticos e a títulos honoríficos aos cristãos-velhos (aqueles que seriam católicos há pelo menos quatro gerações).


    Mas os estatutos da irmandade acabaram assegurando a presença de proprietários de escravos ao lado de libertos e cativos, que se integravam à agremiação por dominarem algum ofício.


    O Corpo de Deus era a única celebração mencionada no compromisso de 1757. No dia 23 de abril comemorava-se o dia de São Jorge, mas só em 1791 os irmãos viriam a definir como: por meio de missa cantada e sermão. Ainda que de forma breve, eram determinados os ricos adornos que o santo usaria durante a procissão. Também eram indicados dois mordomos que seguiam o santo. Se algum dos irmãos de São Jorge recusasse “tão esplêndido serviço”, logo seria “expulso e riscado da Irmandade”. Também teria que desembolsar uma multa e continuar a pagar os anuais para manter a loja de seu ofício. Caso contrário, não continuaria trabalhando com loja aberta. Para evitar essas faltas, o juiz e o escrivão funcionavam como curingas e exemplos para a corporação, punindo os membros da irmandade que não queriam participar de um dos rituais mais importantes da comunidade.


    Em 1791, quando novo compromisso foi elaborado, as penas ficaram mais rigorosas. No novo estatuto, os irmãos eram obrigados a “compor anualmente a Imagem do senhor São Jorge para ir à Procissão do Corpo de Deus”, com “todo o asseio possível”. Os quatro devotos que conduziriam sua imagem seriam propostos à Câmara, e, caso não comparecessem à festividade, ficariam “condenados cada um na quantia de seis mil réis pagos executivamente da cadeia”. Mas sempre havia espaço para negociação. Os reincidentes não eram expulsos imediatamente, recebendo antes algumas punições. Também existia um sistema de rodízio que tentava garantir a presença de todos no cortejo. Nessa ocasião, também foram incluídos outros tipos de ofício: os picheleiros, que faziam vasos de estanho e de lata de flandres; os seleiros, que produziam selas de animais; e os tanoeiros, que confeccionavam ou consertavam tonéis, pipas ou barris.


    No dia marcado para a festividade, a imagem do santo seguia sobre um cavalo bem arreado e enfeitado. Dois irmãos seguravam nas estribeiras, enquanto outra dupla pegava a rédea do animal. Logo ao lado, um alferes com armas brancas, um pajem todo vestido de vermelho e os tocadores de trombetas e atabaques também cavalgavam. Músicos negros levavam instrumentos de sopro e percussão, atraindo benefícios e exorcizando os malefícios. Eram acompanhados de perto por outros fiéis, que também percorriam o trajeto a pé.


    São Jorge e sua corte apontavam para certa memória da monarquia portuguesa, particularmente da Dinastia de Avis e, simultaneamente, para os elementos populares fornecidos pelos mestres de ferro e fogo à procissão, que exaltava a unidade político-religiosa dos diferentes grupos sociais. Assim, os devotos do santo guerreiro acabavam promovendo um ritual próprio na festa de Corpus Christi, e os juízes e escrivães desses ofícios ocupavam posição de honra nessa aparição. Nas celebrações do Corpo de Deus, a monarquia portuguesa parecia reunir os três corpos da república – “Igreja, Senado e Povo” –, enquanto politicamente o “Povo”, no qual se incluíam os artesãos, ficava excluído dos poderes locais.


    Beatriz Catão Cruz Santos é professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de O Corpo de Deus na América (Annablume, 2005).


    Saiba Mais - Bibliografia


    GRUZINKI, Serge. “La fête-Dieu à Mexico ao temps de La Nouvelle-Espagne” in: MOLINIÉ, Antoniette (org.). Le corps de Dieu en Fêtes.  Paris: Lés Éditions Du Clerf, 1996.


    PITREZ, Maria Cláudia. “23 de Abril – festa de São Jorge; um estudo sobre a oficialização da festa de um dia santo em feriado municipal na cidade do Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS (dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia), 2007.


    RUBIN, Miri.  Corpus Christi. The Eucharist in Late Medieval Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
    SANTOS, Georgina. Ofício e Sangue, a irmandade de São Jorge e a Inquisição na Lisboa Moderna. Lisboa: Colibri, 2005.


    SCHWARTZ, Stuart. “Ceremonies of Public authority in a colonial capital. The king’s processions and the hierarquies of Power in the seventeenth century Salvador” in: Anais de História de Além-Mar, 5, 2004, pp.7-26.

SÃO JORGE E O DRAGÃO


O Dragão e São Jorge




















São Jorge venceu contra satanás terríveis batalhas, por isso a imagem mais conhecida dele, é montado em um cavalo branco, vencendo um enorme dragão, que simbolizava o demônio, destruído com as armas da fé. Este grande Santo nos convida a seguirmos Jesus Cristo, sem desistir do combate.




















A Lenda do Dragão
Diz a lenda que São Jorge teria salvo uma princesa das garras de um terrível dragão, com a sua espada domou o dragão, que a princesa conduziu de volta a seu povoado como um manso cordeirinho. O misterioso cavaleiro disse ter vindo em nome de Jesus Cristo.

VEJA ONDE SÃO JORGE DESCANSA



O Túmulo em Israel




















O túmulo de São Jorge encontra-se na cidade de Lida, em Israel. O Imperador romano Constantino I mandou construir um suntuoso oratório aberto aos fiéis, para que a devoção ao Santo fosse divulgada por todo o oriente.

Desde o século VI, havia peregrinações ao túmulo de São Jorge, esse santuário foi destruído e reconstruído várias vezes durante a história.

ASSISTA O VÍDEO

SAIBA QUEM FOI SÃO JORGE

A História


















Jorge de Anicii nasceu no ano de 280 d.c na antiga Capadócia, região do sudeste da Anatólia, que atualmente faz parte da República da Turquia. Ainda criança mudou-se para a Palestina com a sua mãe, logo após seu pai, um Oficial do Exército Imperial, morrer em campo de batalha. Sua família era de nobres e possuiam muitos bens.


















Ao atingir a adolescência, Jorge entrou para a carreira militar, e por ser corajoso e combativo, logo foi promovido a Capitão do Exército Romano.













Mais tarde o Imperador Diocleciano, lhe conferiu o título de Conde da Capadócia. Aos 23 anos passou a residir na Corte Imperial de Roma, exercendo a função de Tribuno Militar. Nesse tempo sua mãe faleceu, e Jorge herdando todas as riquezas.

















O Imperador Diocleciano e o Governador Daciano, desencadearam uma terrível perseguição contra os Cristãos, com tanta fúria que, em apenas um mês, mais de 17.000 foram martirizados, e muitos outros foram perseguidos e forçados pelas torturas, a renegar a sua fé em Jesus Cristo. Jorge que tinha sangue azul, afligido pelas barbaridades, renunciou a carreira militar.




















Jorge distribuiu todos os seus bens aos pobres e vestindo-se como os Cristãos foi as ruas e passou a falar frases como, "Os deuses pagãos são demônios, o único Deus verdadeiro, é Jesus Cristo". A ousadia de Jorge chegou aos ouvidos do Governador Daciano, um cruel perseguidor de cristãos, que tomado pela ira chamou Jorge e perguntou: "Com que direito chamas os nossos deuses de demônios?, quem és tu?, de onde és tu? e em nome de quem está dizendo isto?, e Jorge respondeu assim: "Eu me chamo Jorge de Anicii, sou um nobre da Capadócia, e com a ajuda de Cristo conquistei as terras da Palestina, mas renunciei a tudo que me foi dado, meus títulos e cargos que possuía, para sem honras e riquezas servir a meu Deus".



















O Imperador tentou convence-lo a renegar a sua fé em Jesus, mas não tendo êxito ordenou as seguintes torturas: O Colocaram em um cavalete de madeira, e teve seus braços e pernas dilacerados com garfos de ferro, e depois mandou cobrir todas as suas feridas com sal. Mas Tudo em vão, Jorge mantinha-se firme, e a cada vitória sobre as torturas ia convertendo mais e mais soldados.




















O Imperador mandou chamar o mais temido feiticeiro para acabar com a vida de Jorge. Irônico o feiticeiro falou: " Se eu não conseguir acabar com esse Cristão, que eu perca a minha cabeça". Ele misturou veneno com vinho e deu pra Jorge beber. O Jovem fez o sinal da Cruz, bebeu o vinho e nada lhe aconteceu, o feiticeiro preparou uma dose ainda mais forte, Jorge novamente fez o sinal da Cruz, bebeu o vinho e continuava vivo, espantado o feiticeiro ajoelhou-se aos pés de Jorge e implorou para ser convertido ao Cristianismo, Jorge o fez,e logo depois foi decapitado.




















Depois de ser torturado durante todo o dia, chegando a noite, o Senhor Deus rodeado de uma Luz Divina, apareceu e consolou Jorge com doces palavras, que o deixou tão confortável, que nem parecia ter sido torturado. O Imperador vendo que, com ameaças e torturas não conseguiria nada, mudou de plano, e o tentou com fortunas e recompensas. Mas Jorge sorrindo respondeu: "Porque em vez de me torturar, não me dissestes estas coisas no inicio? aqui me tens disposto a fazer o que me propõem". O Imperador não se deu conta da tática de Jorge. Diocleciano ordenou que toda a cidade fosse enfeitada, mandou convocar o povo para assistir aos sacrifícios que Jorge por fim iria oferecer aos ídolos romanos.















No dia previsto para o grande acontecimento, a multidão curiosa e com grande expectativa, lotou o templo no qual Jorge iria adorar publicamente os deuses romanos. Na hora marcada, Jorge entrou no templo, ajoelhou-se e pediu ao Senhor Deus para converter todo o povo dentro do templo, e pediu que Deus destruisse todas as estátuas, de maneira que não ficasse nenhum vestígio delas. Acabando sua oração desceu dos céus uma rajada de fogo que reduziu a cinzas todas as imagens. Logo que a multidão presente correu para fora do templo, Jorge saiu mansamente, e de novo fez suas preces, e depois de alguns segundos a terra se abriu e engoliu todo o templo, não ficando o menor vestígio de sua existência.



















Sabendo do ocorrido, o Imperador disse a Jorge: "És o mais abominável dos homens, como é possível tamanha ousadia, a ponto de cometeres um crime tão horrível?". Enfurecido e vendo que Jorge não renegaria a sua fé em Jesus Cristo, mandou que ele fosse arrastado de cavalo por toda a cidade, e depois decapitado. Jorge ao perceber que tinha chegado a sua hora, elevou os olhos ao céu e pediu a Deus que, a partir daquele momento, todos que pedissem seu socorro fossem atendidos, e lá do alto, em resposta a prece do grande Mártir, ouviu-se a voz de Deus concedendo o pedido: "Quem rogasse pela ajuda de São Jorge seria atendido". Depois disso a sentença se cumpriu. São Jorge foi decapitado no dia 23 de abril de 303 d.c em Nicomédia. Seus restos mortais foram transportados para Lida (Antiga Dióspolis), hoje Israel.




















A quantidade de milagres atribuídos a São Jorge é imensa. Segundo a tradição, ele defende e favorece a todos os que a ele recorrem com fé e devoção, vencendo batalhas e demandas, questões complicadas, perseguições, injustiças, disputas e desentendimentos.



















São Jorge Guerreiro da fé, foi Soldado, Capitão e Conde, por nada no mundo deixou o amor e a fé em Jesus Cristo, a quem sempre acreditou e confiou. Salve Jorge da Capadócia!